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O que as florestas revelam sobre a policrise global 

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Como a silvicultura e a agrofloresta abordam os pontos cegos das principais visões sobre a policrise
Aerial view of a forested valley with a river running through it in Lampung, Indonesia
A forested landscape in Lampung, Indonesia, where rivers, farms and tree cover intersect across a managed landscape. Photo by Nanang Sujana / CIFOR-ICRAF

[Nota do editor: Este artigo reflete as opiniões pessoais do autor]

Paul Ehrlich morreu em 13 de março de 2026, aos 93 anos, doze dias antes do 112º aniversário de nascimento de Norman Borlaug. Em janeiro, a Associação Econômica Americana organizou uma sessão na Filadélfia para marcar os 50 anos do Prêmio Nobel de Economia de Milton Friedman. E, em setembro de 2025, a revisão sobre saúde planetária liderada por Johan Rockström confirmou que um sétimo limite planetário havia sido ultrapassado: a acidificação dos oceanos.

Esses quatro pensadores jamais trabalharam juntos, e seus marcos conceituais são, em aspectos fundamentais, incompatíveis. Ainda assim, a convergência desses acontecimentos oferece uma oportunidade para perguntar o que ocorre quando seus diagnósticos sobre a condição humana são colocados em diálogo — e o que revelam, em conjunto, sobre o papel que as florestas e a agrofloresta poderiam desempenhar, ou não, diante da policrise.

Ehrlich diagnosticou o excesso: pessoas demais consumindo demais, esgotando o capital ecológico mais rapidamente do que ele consegue se regenerar (The Population Bomb, Ehrlich, 1968). Rockström definiu o “espaço operacional seguro” e mostrou, em atualizações sucessivas culminando em Richardson et al. (2023), que a humanidade já transgrediu seis dos nove limites planetários — e agora sete. Borlaug demonstrou que a inovação tecnológica pode ampliar drasticamente a fronteira da produção de alimentos e alertou que a Revolução Verde havia alcançado apenas um “sucesso temporário”. Friedman argumentou que externalidades não precificadas — e não os mercados em si — impulsionam o fracasso ambiental, e que os mecanismos de preço são ferramentas de ajuste mais eficazes do que a regulação direta.

A policrise é precisamente isso: um fenômeno que nenhum desses marcos consegue abarcar isoladamente e que, quando reunidos, frequentemente aponta para direções políticas distintas — e às vezes opostas. 

Argumentei em outros espaços que essa incompatibilidade representa, por si só, um obstáculo estrutural.

Ainda assim, existe um campo que recebe pouca atenção nesses marcos e que, se compreendido e governado adequadamente, poderia enfrentar simultaneamente cada um desses pontos cegos. Devo declarar um interesse evidente: dirijo uma instituição de pesquisa florestal, e o campo ao qual me refiro são as florestas — mais especificamente, o contínuo de sistemas de uso da terra que vai das florestas intactas às paisagens agroflorestais. O leitor pode ajustar sua interpretação levando em conta esse possível viés institucional. Ainda assim, o argumento estrutural se sustenta por si só.

Aerial view of dense tropical forest canopy partially covered by clouds in the Amazon
Nuvens cobrem o dossel da floresta tropical na Amazônia. Foto de Neil Palmer / CIAT.

O marco dos limites planetários define a mudança nos sistemas terrestres em função da cobertura florestal remanescente: 75% da área florestal original deveria permanecer intacta, incluindo 85% das florestas boreais e tropicais e 50% das temperadas. Hoje, porém, resta apenas 59% em escala global, colocando-nos em uma zona de risco crescente. 

O que torna as florestas singulares é que elas regulam simultaneamente pelo menos outros quatro limites planetários já transgredidos. 

Elas constituem o maior sumidouro terrestre de carbono, absorvendo em média 5,5 gigatoneladas líquidas de CO₂ equivalente por ano entre 2001 e 2023, segundo o modelo atualizado de fluxos do Global Forest Watch. Regulam os ciclos de água doce por meio da evapotranspiração, da retenção de umidade no solo e da reciclagem das chuvas — processos fundamentais para o limite das mudanças no sistema hídrico. Abrigam a maior parte da biodiversidade terrestre, tornando-se inseparáveis do limite de integridade da biosfera. E, por meio da fixação biológica de nitrogênio e da ciclagem de nutrientes nos solos florestais, modulam os fluxos biogeoquímicos, um limite que o marco identifica como profundamente transgredido.

Nenhuma outra categoria de uso da terra atua simultaneamente sobre cinco dos nove limites planetários dessa maneira — uma realidade estrutural com implicações diretas para a governança.

E, ainda assim, as florestas continuam sendo tratadas como uma questão setorial, em vez de como o sistema biofísico do qual os demais setores dependem. 

Um ministro da Fazenda que compreendesse que a Amazônia regula o ciclo hidrológico da agricultura brasileira, que as florestas tropicais intactas da bacia do Congo capturam 600 milhões de toneladas de CO₂ por ano a mais do que emitem, ou que as florestas do mundo armazenam cerca de 714 gigatoneladas de carbono em seus diversos reservatórios, trataria o desmatamento como uma questão macroeconômica e de segurança — e não como um problema ambiental setorial.

O fracasso persistente em adotar essa mudança de perspectiva não é acidental; ele reflete a forma como os sistemas que sustentam todas as economias continuam sendo governados — quando o são — por mecanismos fragmentados, subfinanciados e amplamente voluntários. 

O que acontece, então, quando cada uma das quatro visões para 2050 é analisada sob a perspectiva da silvicultura e da agrofloresta? 

A visão de Ehrlich, centrada na demanda, exige reduzir o uso de materiais e a pegada ecológica da humanidade. O desafio político é evidente: uma redução aplicada de forma uniforme seria regressiva e ilegítima no Sul Global, onde o consumo per capita é menor e o crescimento populacional é maior. As florestas não resolvem esse problema político, mas reformulam a questão. 

O que acontece, então, quando cada uma das quatro visões para 2050 é analisada sob a perspectiva da silvicultura e da agrofloresta? 

A visão de Ehrlich, centrada na demanda, exige reduzir o uso de materiais e a pegada ecológica da humanidade. O desafio político é evidente: uma redução aplicada de forma uniforme seria regressiva e ilegítima no Sul Global, onde o consumo per capita é menor e o crescimento populacional é maior. As florestas não resolvem esse problema político, mas reformulam a questão. 

Manter e restaurar a cobertura florestal preserva a infraestrutura de absorção e regulação do sistema terrestre — os sumidouros de carbono que processam emissões, as bacias hidrográficas que geram chuvas e as comunidades biológicas que sustentam polinização e controle de pragas — sem exigir o passo politicamente inviável de restringir universalmente o consumo. 

Em termos biofísicos, proteger florestas intactas é uma das formas mais custo-efetivas de reduzir a pegada ecológica líquida da economia global. A limitação, evidentemente, é que a proteção florestal exige enfrentar os motores econômicos do desmatamento, sobretudo a agricultura de commodities, o que nos leva imediatamente às questões de distribuição e poder. 

Quando complementado por uma agenda robusta de governança florestal, o marco de Ehrlich torna-se mais defensável e menos regressivo do que em sua formulação original — embora o desafio de governança permaneça considerável.

A visão de governança de Rockström exige metas vinculantes traduzidas em regulações aplicáveis. As florestas representam o caso de teste mais promissor para essa tradução, porque o limite relacionado às mudanças nos sistemas terrestres é aquele cuja variável de controle — a cobertura florestal remanescente por bioma — pode ser medida diretamente por observação via satélite e, portanto, governada por meio de políticas comerciais, regulações de cadeias de suprimento e leis de uso da terra. 

O Regulamento Europeu sobre Produtos Livres de Desmatamento (EUDR), apesar de seus desafios de implementação e recentes flexibilizações, materializa essa lógica: incorporar um limite planetário às condições de acesso ao mercado.

Aerial view of mist over a forested and agroforestry landscape in Lampung, Indonesia
A névoa se ergue sobre uma paisagem florestal em Lampung, Indonésia, onde sistemas agroflorestais moldam as encostas. Foto de Ulet Ifansasti / CIFOR-ICRAF.

Se fosse ampliada para incluir produtos intensivos em nitrogênio cultivados em áreas recentemente desmatadas, essa arquitetura regulatória poderia enfrentar simultaneamente dois limites planetários já transgredidos por meio de um único mecanismo de governança. O ponto cego de Rockström — a ausência de uma economia política da implementação — é parcialmente resolvido quando o alvo da governança é um ativo tangível e verificável por satélite, como a cobertura florestal, em vez de uma concentração atmosférica ou de um índice de biodiversidade. O Protocolo de Montreal teve êxito, em parte, porque o cumprimento era verificável. A cobertura florestal oferece verificabilidade comparável.

A visão produtivista de Borlaug exige aumentos contínuos de produtividade, especialmente na África Subsaariana, onde os rendimentos médios de cereais permanecem próximos de 1,4 tonelada por hectare — patamar semelhante à média global de 1961. É aqui que a agrofloresta se torna essencial. 

Uma meta-análise de 126 estudos revisados por pares na África Subsaariana constatou que os rendimentos agrícolas em sistemas agroflorestais eram, em média, quase o dobro daqueles observados em sistemas convencionais, ao mesmo tempo em que melhoravam a fertilidade do solo em um fator de 1,2, reduziam o escoamento superficial e a perda de solo em fatores de cinco e nove, respectivamente, e triplicavam a infiltração de água. 

Os sistemas agroflorestais também podem sequestrar entre 3,5 e 9,8 toneladas de CO₂ por hectare por ano, dependendo da composição das espécies e das condições locais, além de reduzir as temperaturas superficiais entre 2°C e 5°C dentro das paisagens produtivas — um amortecedor importante diante do estresse térmico em um cenário de aumento das temperaturas globais.

A diferença crucial entre a agrofloresta e a Revolução Verde original é distributiva — e é justamente aí que o ponto cego de Borlaug é enfrentado de forma mais direta. As variedades de alto rendimento da Revolução Verde dependiam de insumos comprados: fertilizantes, irrigação, pesticidas e acesso a mercados. Isso fez com que os benefícios se concentrassem desproporcionalmente entre agricultores que já possuíam capital. 

A agrofloresta, por outro lado, opera com processos biológicos: árvores fixadoras de nitrogênio que reduzem ou substituem fertilizantes sintéticos, espécies de raízes profundas que acessam água subterrânea e sistemas diversificados que fornecem alimento, forragem, combustível, madeira e renda a partir de um mesmo hectare. 

No Níger, a regeneração natural manejada por agricultores de Faidherbia albida e outras árvores leguminosas permitiu restaurar cerca de 5 milhões de hectares desde 1985 — impulsionada não por subsídios externos, mas por uma mudança política que garantiu aos agricultores direitos de posse sobre as árvores. 

O Fundo Internacional de Desenvolvimento Agrícola (FIDA) estima que a agrofloresta pode aumentar a renda anual entre 100 e 300 dólares por hectare apenas por ganhos de produtividade, enquanto produtos arbóreos diversificados podem acrescentar entre 200 e 2.000 dólares por hectare ao longo do tempo, com retorno estimado de 1,52 dólar para cada dólar investido. 

Naturalmente, a agrofloresta também possui limitações próprias. 

Árvores levam anos para amadurecer, o que exige que agricultores aceitem retornos retardados difíceis de financiar sem acesso a crédito ou segurança fundiária. A competição por luz e água entre árvores e cultivos precisa ser manejada, e o conhecimento necessário para isso é altamente específico ao contexto e intensivo em trabalho. Essas limitações são reais e ajudam a explicar a lenta adoção da agrofloresta em muitos lugares, apesar das evidências disponíveis. Ainda assim, sua vantagem estrutural permanece: ela oferece a lógica produtivista de Borlaug por meio de um mecanismo institucional capaz de incluir pequenos produtores, em vez de marginalizá-los. 

A visão de Friedman exige que externalidades sejam internalizadas para que os sinais de mercado reflitam custos reais. O setor florestal representa uma das maiores externalidades não precificadas da economia global. As florestas oferecem regulação climática, serviços hidrológicos, suporte à polinização, formação de solos e manutenção da biodiversidade — serviços consumidos por praticamente todos os atores econômicos do planeta e pagos por quase nenhum deles. Quando florestas são convertidas em soja, óleo de palma ou pecuária, o mercado registra o valor do produto gerado e ignora o valor dos serviços destruídos. 

Se aplicado de maneira rigorosa, o marco de Friedman exigiria que esses serviços fossem precificados e que o desmatamento arcasse com seu custo social integral. A precificação do carbono é o mecanismo mais desenvolvido até hoje, mas captura apenas uma entre pelo menos cinco grandes categorias de serviços ecossistêmicos. Uma valoração abrangente dos serviços florestais tornaria as florestas em pé economicamente mais valiosas do que áreas desmatadas na maioria das paisagens tropicais.  

O problema, como em quase todas as aplicações da lógica de Friedman em mercados concentrados, é que as instituições mais bem posicionadas para implementar esses sistemas de precificação frequentemente são as mesmas cujos modelos de negócio dependem da permanência dessas externalidades invisíveis. O ponto cego de Friedman não desaparece quando aplicado às florestas. Ele precisa ser governado. 

Desse exercício emerge algo que nenhum dos quatro pensadores oferece isoladamente: um ponto de convergência. 

As florestas e a agrofloresta constituem um campo singular em que a lógica da demanda (manter a capacidade de absorção), da governança (limites mensuráveis e verificáveis), da oferta (ganhos de produtividade para os produtores mais pobres) e dos preços (internalização das maiores externalidades não precificadas) apontam na mesma direção. 

Essa convergência não simplifica a política. Não resolve as assimetrias de poder que impulsionam o desmatamento, a captura corporativa que enfraquece regulações nem os fracassos distributivos que deixam 673 milhões de pessoas passando fome em um mundo de excedentes calóricos. Ainda assim, ela reduz o tamanho do problema. 

Ela identifica um campo em que marcos estruturalmente incompatíveis se sobrepõem e no qual intervenções concretas — como regulação de cadeias de suprimento, reforma fundiária, extensão agroflorestal, valoração de serviços ecossistêmicos e governança territorial — podem avançar simultaneamente nas quatro agendas, em vez de sacrificar umas em favor de outras. 

Vale lembrar que o sumidouro florestal de carbono não é garantido. Em 2023 e 2024, incêndios extremos fizeram com que as florestas absorvessem apenas um quarto do CO₂ capturado em um ano médio. Pan et al. (2024), publicado na Nature, identificou que o sumidouro de carbono em florestas tropicais intactas diminuiu 31% em três décadas, enquanto em florestas boreais a queda chegou a 36%, devido ao aumento das perturbações. 

A person tapping a tree for resin in a forest agroforestry system in Lampung, Indonesia
Um agricultor coleta resina de árvores em Lampung, Indonésia. Foto de Ulet Ifansasti / CIFOR-ICRAF.

São perdas mensuráveis de uma infraestrutura funcional da qual depende, implicitamente, toda a estratégia global de mitigação climática. Se o sumidouro florestal continuar enfraquecendo enquanto as emissões seguem aumentando, a distância entre o que a governança promete e o que a atmosfera efetivamente recebe ultrapassará qualquer resposta política plausível. 

O que elas oferecem é uma convergência estrutural: um espaço em que os quatro diagnósticos deixam de se contradizer e passam a reforçar um mesmo conjunto de intervenções.  

Que essa convergência seja aproveitada dependerá de os sistemas de governança conseguirem tratar as florestas como aquilo que funcionalmente são: a infraestrutura oculta da estabilidade planetária. 

A evidência para isso nunca foi tão sólida. As condições políticas para fazê-lo raramente foram tão restritivas. Essa tensão define o espaço no qual as políticas florestais e agroflorestais serão moldadas no próximo quarto de século.  

Referências


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