Este é o primeiro de uma série de dois artigos de opinião que examinam por que a bacia do Congo recebe muito menos financiamento florestal do que outras regiões tropicais.
A bacia do Congo absorve seis vezes mais dióxido de carbono do que a Amazônia. Ainda assim, recebe apenas uma fração dos recursos globais destinados à melhoria da gestão florestal e à conservação. Após duas décadas atuando em políticas de florestas tropicais, passamos a ver esse desequilíbrio como uma das falhas de mercado mais graves nas finanças climáticas globais — e ele está se agravando, mesmo com o aumento dos compromissos financeiros.
Entre 2008 e 2017, o financiamento internacional para florestas tropicais foi distribuído aproximadamente da seguinte forma: Sudeste Asiático 55 %, Amazônia 34 % e bacia do Congo 11 %. Esse padrão não mudou realmente durante a última década.
Somente a Noruega canalizou US$ 1,2 bilhão para o Brasil por meio do Fundo Amazônia desde 2008. Em 2010, o país assinou um acordo REDD+ semelhante, de US$ 1 bilhão, com a Indonésia.
A Iniciativa Florestal da África Central (CAFI), que reúne seis países da bacia do Congo, mobilizou US$ 680 milhões em compromissos totais por meio de duas cartas de intenção com a República Democrática do Congo (RDC) — US$ 200 milhões em 2016 e US$ 500 milhões em 2021 —, além de parcerias adicionais com Gabão, República do Congo, Camarões e Guiné Equatorial. No entanto, os desembolsos têm sido lentos. Até o final de 2020, apenas US$ 202 milhões haviam sido transferidos. Embora os desembolsos tenham acelerado em 2024 (atingindo 122 milhões naquele ano), a lacuna entre os compromissos e recursos efetivamente entregues permanece significativa.
Para colocar em perspectiva, tanto em termos monetários quanto por hectare: os compromissos totais da CAFI com a RDC desde sua criação em 2015 — cerca de US$ 700 milhões — equivalem aproximadamente a dois terços do que a Noruega, sozinha, prometeu a um único país amazônico desde 2008.
A Amazônia atrai aproximadamente US$ 1,14 dólares por hectare por ano em financiamento florestal tropical. O Sudeste Asiático recebe entre 1,50 e 2,10 dólares. Os países da bacia do Congo recebem entre 0,21 e 0,50 dólares.
Uma conservação significativa apenas na RDC exigiria entre 10 e 15 dólares por hectare por ano. Para os 143 milhões de hectares de floresta do país, isso representa mais de US$ 500 milhões anuais.
Vista aérea da floresta em Yangambi, RDC. Foto de Axel Fassio / CIFOR-ICRAF.
O Center for Global Development estimou o valor anual do serviço de remoção de carbono da bacia do Congo em 55 bilhões de dólares. Enquanto isso, a ajuda ao desenvolvimento florestal na África gira em torno de apenas 170 milhões de dólares por ano. Essa relação de aproximadamente 150 para 1 entre o valor do serviço e a compensação representa talvez a falha de mercado mais evidente da política climática global.
Por que esse desequilíbrio?
A explicação imediata mais frequentemente citada para essa lacuna de financiamento é a governança. Os países da bacia do Congo apresentam pontuações baixas em indicadores como controle da corrupção, transparência, Estado de direito e facilidade para fazer negócios — o que torna investidores públicos e privados mais cautelosos.
Mas a governança explica apenas parte da história.
Indonésia e Brasil apresentam pontuações semelhantes às dos países da bacia do Congo no Índice de Percepção da Corrupção da Transparência Internacional — todos abaixo do ponto médio de 50, que mais de dois terços dos países do mundo compartilham. Ainda assim, Indonésia e Brasil recebem muito mais financiamento florestal do que a bacia do Congo. As pontuações de governança, por si só, não explicam essa diferença.
Então, o que mais está em jogo?
O efeito das cadeias globais de suprimento
Um fator pouco considerado reside nos mercados globais de commodities.
Para o bem ou para o mal, produtos como o óleo de palma, a borracha, a soja, a carne bovina e a madeira conectam diretamente as florestas do Brasil e do Sudeste Asiático aos balanços das corporações multinacionais, seus bancos e investidores. Essas dinâmicas de cadeia de suprimento criam atores corporativos interessados na conservação e geram pressão reputacional para reduzir o desmatamento. Ativam amplas dependências e conexões globais que ainda não existem nos países da bacia do Congo.



Por exemplo, quando a Wilmar International adotou uma política de desmatamento zero em 2013, desencadeou uma onda de compromissos corporativos em toda a indústria do óleo de palma. Em uma década, a Indonésia reduziu o desmatamento associado ao óleo de palma para cerca de 18% dos seus níveis máximos.
O coletivo Rimba, apoiado por Nestlé, PepsiCo, Procter & Gamble e Wilmar, agora busca mobilizar 1 bilhão de dólares em investimentos para conservação.
Em comparação, os países da bacia do Congo têm muitas poucas empresas com esse tipo de dependência, conexões e pressão reputacional.
O desmatamento na região é impulsionado sobretudo pela agricultura de subsistência e atividades associadas — como a produção de carvão vegetal e a extração de madeira — o que limita a pressão de cadeias de suprimento internacionais.


A falha de desenho do REDD+
Outro problema estrutural está no próprio desenho do REDD+.
O marco do REDD+ foi projetado para recompensar a redução do desmatamento, em vez da manutenção das florestas em pé. Isso criou um incentivo perverso: os países que já haviam destruído grandes áreas florestais e depois reduziram essa destruição (Brasil, Indonésia) receberam pagamentos, enquanto os países que mantiveram suas florestas intactas (Gabão, República do Congo) ficaram à margem.
A lógica de “quem mais desmatou, mais recebe” desviou recursos justamente dos países que conservaram melhor suas florestas.
O novo Fundo Florestas Tropicais para Sempre (TFFF, na sigla em inglês) parece ter sido projetado para corrigir essa falha, mas ainda não está plenamente operacional nem financiado.
A lacuna de monitoramento
Sem sistemas de monitoramento, relato e verificação (MRV), os países não podem demonstrar reduções de emissões e, portanto, não conseguem acessar pagamentos baseados em resultados, independentemente de quanto carbono suas florestas realmente absorvam.
O Brasil opera monitoramento satelital do desmatamento desde 1988 por meio de seu Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), com cerca de 2.000 funcionários. A Indonésia desenvolveu um sistema nacional de MRV que comprovou 577 milhões de toneladas de reduções verificadas de emissões.
Papua-Nova Guiné investiu uma década na construção de um Inventário Florestal Nacional que possibilitou seu primeiro pagamento REDD+ baseado em resultados, de 63,4 milhões de dólares, do Fundo Verde para o Clima em 2025. Papua-Nova Guiné tem uma pontuação semelhante à de vários países da bacia do Congo no Índice de Percepção da Corrupção e, ainda assim, conseguiu acessar financiamento climático baseado em resultados.
A lição é clara: infraestrutura científica e dados sólidos, transparentes e verificáveis não são um luxo, mas um pré-requisito para acessar financiamento climático.
Com a possível exceção do Gabão, os países da bacia do Congo carecem de sistemas nacionais de monitoramento nessa escala. O que a região tem é um importante apoio internacional à pesquisa, que cresce a cada dia com múltiplas iniciativas.

Por mais de duas décadas, por exemplo, a Comissão Europeia tem apoiado a criação, atualização e melhoria do Observatório das Florestas da África Central (OFAC), coordenado pelo Centro para a Pesquisa Florestal Internacional e Centro Internacional de Pesquisa Agroflorestal (CIFOR-ICRAF) e agora uma unidade especializada da Comissão das Florestas da África Central (COMIFAC). Esse organismo regional tornou-se a principal infraestrutura de conhecimento da região. A publicação emblemática do OFAC, O estado das florestas da bacia do Congo, foi produzida sete vezes desde 2005. A edição de 2021 mobilizou 152 autores em 13 capítulos e continua sendo a referência mais completa para quem trabalha nas florestas da África Central.
Ainda assim, iniciativas como o OFAC não substituem o essencial: sistemas nacionais de monitoramento que os próprios governos possam operar, manter e expandir de forma independente.
>Aguarde a segunda parte deste artigo em breve, que examina os desafios institucionais mais profundos enfrentados pela bacia do Congo e o que será necessário para garantir seu futuro.








