LANGUAGE

Pesquisar artigo

Do combate à gestão: como a Amazônia está reinventando o uso do fogo 

ES, PT-BR
10 min read
Comunidades, cientistas e governos impulsionam uma agenda regional sobre fogo e incêndios
Brigadista asháninka usa una herramienta especializada para el manejo técnico del fuego y la supresión de incendios conocida como batefuegos. Foto: Central Asháninka Río Ene

O ano de 2024 marcou um recorde de incêndios florestais na Amazônia, impulsionado por condições extremas de seca e altas temperaturas. O fogo devastou milhões de hectares de floresta nos países que compartilham esse bioma, com fortes impactos no meio ambiente, na saúde e nos meios de vida das comunidades que manejam paisagens florestais e dependem diretamente de seus recursos. 

“As comunidades indígenas têm uma relação direta e permanente com a floresta, tanto para a caça de subsistência, voltada à alimentação, quanto para plantas medicinais e materiais de construção. Com os incêndios de 2024, o dano foi quase total nos territórios”, afirmou Juanito Cuéllar, líder de uma brigada comunitária de bombeiros florestais na Chiquitania boliviana. 

Suas palavras ecoaram durante o Encontro Pan-Amazônico sobre Cultura, Uso e Manejo do Fogo, realizado de 3 a 5 de março em Santa Cruz de la Sierra, um dos departamentos mais afetados pelos incêndios de 2024 na Bolívia, país que — junto com o Brasil — registrou a maior devastação de florestas, seguido pelo Peru. 

Da Terra Indígena do Xingu, no Brasil, o cacique Yuri Kuikuro destacou como as comunidades estão na linha de frente: “Em 2020, um incêndio começou a devorar a floresta e não houve apoio aéreo. Então nos organizamos. Combatemos o fogo sem equipamentos de proteção, porque essa era a nossa realidade naquele momento”. 

Juanito Cuellar, líder da brigada comunitária de Santiago de Chiquitos, no município de Roboré, Santa Cruz, Bolívia. Foto: CIFOR-ICRAF
Com a participação majoritária de representantes indígenas e comunidades locais, o Encontro Pan-Amazônico sobre Cultura, Uso e Manejo do Fogo destacou o papel dos atores territoriais. Foto: CIFOR-ICRAF

Em meio a desafios crescentes como as mudanças climáticas e o desmatamento, a resposta aos incêndios nos territórios amazônicos — como o Xingu — vem sendo fortalecida a partir da prevenção e dos conhecimentos tradicionais sobre o uso do fogo como ferramenta de gestão. 

“Não vemos o fogo como o vilão que muitas vezes é apresentado. Para nós, ele tem um papel fundamental em nossa existência”, afirmou Pedro Paulo Xerente, líder indígena do estado de Tocantins, Brasil, referindo-se ao uso ancestral de um elemento que permitiu cozinhar, aquecer e produzir alimentos, mas que hoje requer uma gestão adaptada baseada na soma de esforços. 

Por meio do diálogo intercultural e intersetorial, o encontro buscou fortalecer a cooperação regional e avançar rumo a uma articulação pan-amazônica em torno do Manejo Integrado do Fogo (MIF). “É fundamental unir diferentes experiências e saberes para gerar informação de qualidade e construir caminhos para essa incidência conjunta”, afirmou Alison Castilho, coordenador territorial do CIFOR-ICRAF Brasil, durante o encontro coorganizado pelo CIFOR-ICRAF e pela Rede Bioamazônia, com apoio do  Global Fire Management Hub, liderado pela FAO. 

Entender o fogo na Amazônia

“O MIF deixa de ver o fogo apenas como um inimigo a ser combatido e passa a tratá-lo como uma ferramenta de gestão”, explicou Castilho a um público de cerca de sessenta participantes da Bolívia, Brasil, Peru, Colômbia e Equador, incluindo representantes de organizações indígenas, governos, organizações não governamentais e centros de pesquisa. 

Nesse contexto, o MIF foi apresentado como uma abordagem que vai além da resposta a emergências, incorporando prevenção, uso planejado do fogo e a articulação entre conhecimentos tradicionais, técnicos e científicos para uma melhor gestão dos territórios. 

Representantes de comunidades amazônicas compartilharam como o fogo faz parte da vida cotidiana e do manejo territorial: é utilizado para cozinhar, produzir materiais como flechas e artesanatos, preparar remédios, iluminar áreas sem eletricidade e aquecer durante períodos de frio intenso. “O fogo é vida, é economia, é esperança”, afirmou Saúl Vega, vice-presidente da Central Asháninka do Río Ene (CARE), no Peru.

Representantes de comunidades indígenas e locais da Bolívia apresentam as diferentes perspectivas sobre o uso e manejo do fogo no país. Foto: CIFOR-ICRAF
Flor Reyes, brigadista da comunidade camponesa Palomar de Ollantaytambo, em Cusco, Peru. Foto: CIFOR-ICRAF

Também destacaram o papel histórico do fogo como ferramenta agrícola. “No campo usamos o fogo principalmente para limpar as roças, fertilizar o solo e cultivar — não para queimar a floresta”, explicou Flor Reyes, brigadista da comunidade camponesa Palomar de Ollantaytambo, em Cusco, Peru. 

Essas práticas são realizadas em áreas reduzidas e fazem parte de sistemas produtivos cíclicos que permitem a regeneração da floresta. “A agricultura itinerante envolve ciclos de uso e descanso do solo que permitem sua recuperação. Não se trata de um processo linear de degradação, como muitas vezes se assume”, explicou Fernanda, pesquisadora do Instituto Mamirauá e integrante da Rede Bioamazônia. 

Novos desafios para o manejo do fogo

“Antes usávamos o fogo para preparar a roça, guiados pelo vento e queimando ao meio-dia. Mas hoje o clima mudou drasticamente”, explicou Vega. 

Como ele, outros participantes destacaram que as condições que antes permitiam manejar o fogo com segurança estão mudando rapidamente. O aumento das temperaturas, as secas prolongadas e as alterações nos padrões de chuva tornam mais difícil controlar até mesmo as queimadas tradicionais. 

Por trás desses cenários, os participantes identificaram fatores que vão além das práticas comunitárias: a expansão da fronteira agrícola, o uso especulativo do fogo para apropriação de terras e a falta de controle e sanção de atividades ilegais. “Nós abrimos quatro ou cinco hectares no máximo para produzir alimentos. Já os empresários abrem 500 ou até milhares de hectares”, afirmou Ignacia Supepi, líder indígena e bombeira florestal da Bolívia. 

A isso se somam desafios institucionais persistentes. Em muitos casos, as políticas públicas ainda tratam o fogo sob uma lógica restritiva e punitiva, sem diferenciar o uso tradicional dos incêndios destrutivos. Além disso, a gestão centralizada e a falta de recursos e equipamentos em áreas rurais limitam respostas eficazes. 

Estratégias a partir dos territórios

Diante desses desafios, comunidades em diferentes territórios desenvolveram seus próprios sistemas de prevenção de incêndios, como calendários de queima, regras internas sobre quando e onde usar o fogo e práticas como a redução de material combustível ao redor das casas. “Na comunidade temos uma carpintaria, onde recolhemos resíduos de madeira e os transformamos em utensílios e outros objetos úteis”, explicou Supepi. 

No Peru, por exemplo, comunidades indígenas e camponesas implementaram sistemas de alerta precoce com bandeiras coloridas que indicam níveis de risco, complementados por rádios comunitárias, mensagens móveis e uso de dados meteorológicos locais para antecipar situações de perigo. Essas ferramentas permitem agir de forma coordenada. 

As brigadas comunitárias — ou “quadrilhas”, como são chamadas na Bolívia — são parte fundamental dessas estratégias. Em vários territórios, atuam não apenas no combate a incêndios, mas também em monitoramento, sensibilização, capacitação e restauração. Muitas vezes, funcionam de forma voluntária, sustentadas pelo compromisso das próprias comunidades, apesar das limitações de recursos. 

Paralelamente, o uso de tecnologias adaptadas ao contexto local — em alguns casos em idiomas indígenas — vem crescendo. Desde aplicativos para monitorar focos de calor até sistemas de vigilância com sensores e carregadores solares, essas ferramentas fortalecem a capacidade de resposta, especialmente em áreas remotas.

Essas ações também contam com parcerias com organizações não governamentais e instituições públicas, que contribuem com capacitação, equipamentos, produção de conhecimento e incidência em políticas públicas que integrem saberes territoriais. Em alguns países, como o Brasil, há avanços na incorporação do manejo integrado do fogo em políticas públicas, incluindo formação de brigadas e desenvolvimento de planos territoriais. 

No Bolivia, em nível subnacional, Santa Cruz conta com uma política departamental de manejo integrado do fogo — a única desse tipo no país — que incorpora abordagens inclusivas e reconhece o uso cultural do fogo. No entanto, sua implementação ainda é incipiente.

Uma agenda comum para a Amazônia

O encontro deixou claro que os desafios enfrentados pela Amazônia são compartilhados e exigem respostas articuladas. Também evidenciou a necessidade de que estratégias, informação e financiamento estejam mais alinhados às realidades territoriais — incluindo mulheres e jovens, frequentemente excluídos dessas discussões — e que esses aprendizados cheguem aos espaços de tomada de decisão. 

Nesse contexto, os participantes avançaram na construção de um roteiro regional para o manejo do fogo, definindo cinco diretrizes principais: reconhecer e integrar o conhecimento ancestral nas políticas públicas; fortalecer a assistência técnica para produção de alimentos e manejo do fogo; garantir equipamentos e recursos para as comunidades; consolidar a governança territorial; e ampliar a participação política de povos indígenas e comunidades locais. 

O encontro também impulsionou a criação de um Comitê Executivo, formado por técnicos, pesquisadores e líderes territoriais, que dará continuidade ao processo de diálogo e articulação regional em escala pan-amazônica.

“Queremos que esse processo continue fortalecendo as organizações e alianças nos territórios”, afirmou Castilho.

“Acho que agora estamos em um bom caminho. Vejo muito interesse em construir políticas públicas a partir dos povos indígenas, integrando conhecimentos ancestrais e científicos. Essa é a melhor forma de alcançar o objetivo que todos buscamos”, destacou Ignacia Supepi.

Agradecimentos:

O projeto Fogo e território: saberes tradicionais para o manejo do fogo na Amazônia (FUTERRA) é uma iniciativa desenvolvida no âmbito do Global Fire Management Hub da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), com o objetivo de fortalecer o reconhecimento e a integração dos conhecimentos tradicionais e das experiências de comunidades indígenas nos enfoques de manejo integrado do fogo.

A iniciativa é organizada pelo Centro para Pesquisa Florestal Internacional e Centro Internacional de Pesquisa Agroflorestal (CIFOR-ICRAF), com apoio da FAO, do Governo do Canadá (GAC) e do Global Fire Management Hub, e colaboração da Rede Bioamazônia, do Instituto Boliviano de Pesquisa Florestal (IBIF) e da Sociedade Peruana de Direito Ambiental (SPDA).