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Romper o ciclo dos incêndios e da fumaça tóxica: aprendizados e avanços no Sudeste Asiático 

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De sistemas de dados compartilhados a ferramentas de alerta precoce e um compromisso político renovado, o Sudeste Asiático está construindo um futuro mais resiliente e livre da névoa de fumaça.
Bruma matinal sobre as florestas de turfeiras do rio Sebokor, em Muara Padang, Sumatra do Sul, Indonésia. Ecossistemas de turfeiras como este são fundamentais para reduzir o risco de incêndios e avançar rumo a um futuro sem bruma no Sudeste Asiático. Foto: Faizal Abdul Aziz / CIFOR-ICRAF

Durante anos, o Sudeste Asiático enfrentou o impacto de incêndios florestais devastadores e da fumaça tóxica, e os eventos catastróficos de 2015 foram um trágico ponto de inflexão. Naquele ano, enormes áreas de turfeiras arderam em chamas, e gigantescas nuvens de fumaça tóxica envolveram a região; somente a Indonésia sofreu a perda de mais de 100 mil vidas e danos econômicos superiores a USD 16 bilhões. Os incêndios, alimentados por uma complexa interação entre fatores climáticos, de uso da terra e humanos, evidenciaram a necessidade urgente de uma ação coordenada entre países. A névoa de fumaça não representava apenas um risco à saúde; era um alerta de que as formas de gerir a terra e o fogo não podiam continuar.

Desde aquela crise, os países do Sudeste Asiático têm trabalhado juntos para encontrar soluções duradouras. Agora, esses esforços estão dando resultados. O programa Measurable Action for Haze-Free Sustainable Land Management in Southeast Asia (MAHFSA), iniciado em 2019, deu nova estrutura e direção a esse trabalho. 

O MAHFSA foi uma iniciativa conjunta de quase seis anos (2019–2025) entre a Associação de Nações do Sudeste Asiático (ASEAN) e o Fundo Internacional de Desenvolvimento Agrícola (FIDA). O programa foi implementado em colaboração com parceiros-chave: a Secretaria da ASEAN, o Centro para Pesquisa Florestal Internacional e Centro Internacional de Pesquisa Agroflorestal (CIFOR-ICRAF) e o Global Environment Centre. O objetivo do MAHFSA foi enfrentar o problema da névoa de fumaça por meio da promoção da gestão sustentável de turfeiras e de terras.

Em março de 2025, à medida que o programa se aproximava de seu encerramento, foram realizados em Bangkok, Tailândia, um diálogo final de políticas e um evento de encerramento para apresentar os resultados e reconhecer os esforços contínuos dos Estados-membros da ASEAN no combate ao fogo e à névoa de fumaça transfronteiriça, seguidos pela reunião final do comitê diretor do programa. 

Funcionários governamentais, cientistas, líderes da sociedade civil e representantes do setor privado participaram do evento. O objetivo não foi apenas refletir sobre as conquistas, mas também estabelecer novas metas e manter o foco nos riscos e oportunidades que ainda persistem. O encontro reforçou uma mensagem-chave: o progresso é possível, mas exige compromisso contínuo. 

Causas 

Os incêndios que geravam a névoa de fumaça tinham múltiplas causas: turfeiras secas, mudanças nos padrões de chuva e uma pressão crescente para converter florestas em áreas agrícolas e em plantações. A fraca aplicação das normas e a lenta evolução das políticas agravaram a situação. Ainda assim, esses desafios não impediram os parceiros do MAHFSA.

Ao longo dos últimos seis anos, eles reuniram novos conhecimentos, tecnologias e cooperação transfronteiriça. O programa demonstrou como uma abordagem conjunta pode reduzir riscos e melhorar os resultados para as pessoas e o meio ambiente.

Resultados 

Um dos principais resultados do MAHFSA foi o desenvolvimento do Segundo Plano de Ação rumo a um Sudeste Asiático Livre de Névoa de Fumaça, que estabelece metas e etapas claras para cada país. Ele oferece aos governos uma ferramenta para monitorar os avanços e ajustar os planos conforme necessário. O Plano é prático, baseado em evidências e concebido para ser flexível. Divide um problema complexo em ações menores que cada país pode implementar. 

O Marco de Investimentos da ASEAN para a Gestão Sustentável de Terras Livre de Névoa de Fumaça (ASEAN Investment Framework for Haze-Free Sustainable Land Management – AIF-HFSLM) complementa o Plano. Ele conecta a ação climática, a gestão territorial e o financiamento, mostrando como os investimentos podem sair do papel e se transformar em intervenções reais em propriedades rurais, florestas e áreas protegidas. O Marco propõe mobilizar USD 1,5 bilhões até 2030, destinados a prevenir futuros incêndios, restaurar áreas degradadas e promover métodos agrícolas que protejam a natureza e reduzam as emissões. O apoio de governos, empresas e comunidades é central: a responsabilidade não recai sobre um único ator. 

“O Marco é uma grande conquista e, de modo geral, o MAHFSA realmente ajudou os Estados-membros da ASEAN a compreender a importância das turfeiras e de estarem livres de eventos de névoa de fumaça”, afirmou Anupa Rimal Lamichhane, especialista regional em meio ambiente e clima do FIDA, durante sua intervenção principal. “O Marco pode ajudar a aproveitar as contribuições nacionalmente determinadas no âmbito da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC) para atrair mais investimentos internacionais. Este não é o final do MAHFSA. O FIDA tem interesse em continuar apoiando”. 

A tecnologia desempenhou um papel direto nos avanços do programa. 

O caminho à frente 

Durante o evento em Bangkok, os líderes dialogaram sobre os próximos passos. Cora van Oosten, diretora-geral interina do CIFOR-ICRAF, destacou o objetivo final que pode ser alcançado por meio do trabalho conjunto: “Todo esse esforço nos ajudou a construir uma visão compartilhada: uma região livre da névoa de fumaça”. 

Vong Sok, chefe da Divisão de Meio Ambiente da Secretaria da ASEAN, ressaltou que o sucesso de longo prazo depende da manutenção do compromisso: 

“Muito foi alcançado, mas a conservação das turfeiras e a eliminação da névoa de fumaça continuam sendo prioridades permanentes que exigem esforço contínuo”. 

Os sucessos do MAHFSA demonstram o poder duradouro das parcerias. Órgãos governamentais, empresas privadas, comunidades locais e agências internacionais doadoras contribuíram para esses resultados. As ações do programa agora estão integradas a planos nacionais e atividades locais. Há 12 projetos apoiados pelo FIDA em andamento na Indonésia, na Malásia e no Vietnã, cada um aplicando o enfoque do MAHFSA de maneira distinta. A mensagem é clara: seguir fortalecendo capacidades, compartilhando experiências e trabalhando juntos além das fronteiras. 

Ainda assim, os desafios persistem. O clima continua mudando, exercendo pressão sobre florestas e turfeiras. A demanda por terras para a agricultura e para o cultivo de palma de óleo segue elevada. Algumas comunidades ainda utilizam o fogo para limpar áreas por ser uma prática rápida e barata. Regras frágeis e recursos limitados podem dificultar os esforços para conter a queima ilegal. No entanto, há evidências sólidas de que o modelo MAHFSA funciona. Quando as pessoas têm acesso a informações claras, à tecnologia e ao apoio governamental, é possível reduzir riscos e proteger o meio ambiente. 

A preparação da nova fase do MAHFSA é agora a principal prioridade. Essa etapa colocará em prática o AIF-HFSLM, transformando-o em projetos concretos e identificando novas formas de financiamento, para, finalmente, implementar o Segundo Plano de Ação rumo a uma Região Livre de Névoa de Fumaça. A Secretaria da ASEAN continuará liderando e apoiando os esforços para manter os países trabalhando juntos, compartilhar lições aprendidas e integrar novas ideias às abordagens já comprovadas. 

A história do MAHFSA é de progresso constante e prático — não de um salto dramático, mas de uma série de passos significativos baseados na colaboração e no compromisso. Soluções reais surgem da ação conjunta: compartilhar dados, fortalecer capacidades, financiar iniciativas concretas e manter a atenção pública. 

O MAHFSA demonstrou que a mudança é possível e que, com melhores ferramentas, dados abertos e parcerias mais fortes, um futuro sem névoa de fumaça está cada vez mais próximo. 

Ao aproveitar as lições aprendidas e manter todos os parceiros ativamente envolvidos, a região pode continuar avançando com confiança, determinação e uma visão compartilhada de um ar limpo, paisagens saudáveis e comunidades seguras. 


Agradecimentos 

Este artigo foi desenvolvido como parte do programa Measurable Action for Haze-Free Southeast Asia (MAHFSA), uma iniciativa conjunta entre a ASEAN e o Fundo Internacional de Desenvolvimento Agrícola (FIDA), que apoia os esforços para reduzir a poluição por névoa de fumaça transfronteiriça e seus impactos no Sudeste Asiático.