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Espécies arbóreas nativas precisam de apoio para ampliar sua adoção em iniciativas de plantio, apontam cientistas

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Melhorar o acesso a sementes de qualidade e oferecer orientação mais clara pode ajudar a reequilibrar as opções de plantio de árvores.
O manejo e a preparação de mudas ilustram como a qualidade e o manejo das sementes influenciam as decisões de plantio. Foto: Aulia Erlangga / CIFOR-ICRAF

Aqueles que se dedicam ao plantio de árvores precisam de melhor acesso a sementes e mudas de alta qualidade de espécies nativas, assim como a ferramentas de apoio para gerenciar seu uso, a fim de tomar decisões informadas ao escolher entre espécies nativas e introduzidas, segundo autores de umInfobriefpublicado recentemente.

No documento, os autores explicam que tanto as espécies arbóreas nativas (também chamadas de “indígenas”) quanto as introduzidas (ou “exóticas”) são importantes para o plantio. A escolha de quais espécies utilizar em uma determinada paisagem depende, em última instância, dos produtos e serviços ecossistêmicos desejados, da localização e das próprias pessoas que realizam o plantio.

Esses temas estiveram no centro de um webinar realizado pelo Centro Internacional de Pesquisa Florestal e Centro Internacional de Pesquisa Agroflorestal (CIFOR-ICRAF), em parceria com o Global Landscapes Forum, no dia 22 de janeiro de 2026. O diálogo ocorreu no âmbito da Plataforma de Parceria Transformadora para sistemas de fornecimento de sementes e mudas de árvores (Quality Tree Seed TPP), com o tema “Escolher entre espécies arbóreas nativas e introduzidas durante o plantio de árvores”.

O webinar integrou uma série organizada pela plataforma com o objetivo de conectar ciência, prática e políticas públicas em torno dos sistemas de provisão de sementes e mudas de qualidade, visando apoiar a restauração resiliente e o plantio sustentável de árvores em larga escala.

A Quality Tree Seed TPP é uma iniciativa do projeto Right Tree, Right Place, Right Purpose (RTRP-Seed) (“Árvore certa, no lugar certo e para o propósito certo”), apoiado pela Iniciativa Internacional para o Clima da Alemanha (International Climate Initiative – IKI). Seu propósito é fortalecer o desenvolvimento do setor de sementes e mudas florestais na África, para que sejam plantadas árvores de maior qualidade, especialmente espécies nativas.

“Existem obstáculos significativos para a escolha de espécies arbóreas nativas, entre eles a ausência de materiais de plantio adequados e a falta de orientação sobre onde plantar as árvores, bem como sobre como manejá-las e utilizá-las”, afirma Ian Dawson, ecólogo sênior do CIFOR-ICRAF e autor principal do Infobrief.

A árvore certa para o propósito certo

Nas últimas décadas, houve um intenso debate sobre o plantio de espécies arbóreas nativas e introduzidas, bem como sobre suas vantagens e desvantagens relativas para a produção comercial de madeira, a conservação da biodiversidade, a restauração de ecossistemas em maior escala e outros objetivos. Alcançar um consenso entre cientistas, planejadores, produtores e outros atores envolvidos em programas de plantio de árvores tem sido um desafio.

Os debates atuais, por vezes, adotam uma abordagem binária, colocando uma categoria de árvores contra a outra de forma confrontacional.

Embora as espécies exóticas gozem de ampla popularidade entre agricultores, silvicultores e outros gestores de paisagens produtivas, as iniciativas globais de plantio buscam, cada vez mais, incorporar uma maior diversidade de espécies nativas. Essa mudança visa contrabalançar o foco atual em um número reduzido de espécies, o que pode tornar as árvores plantadas vulneráveis a perturbações do ecossistema e afetar o fornecimento de produtos e serviços florestais. Ela também reflete uma ênfase crescente no plantio de árvores com fins de restauração ecológica.

Um raciocínio semelhante pode ser aplicado à produção agrícola.

A diversidade— tanto entre espécies quanto dentro de uma mesma espécie, conservada em bancos de germoplasma ao redor do mundo — é amplamente reconhecida como uma das ferramentas mais eficazes para enfrentar as ameaças à segurança alimentar e aos meios de vida decorrentes das mudanças climáticas. De forma semelhante, o uso de uma maior variedade de espécies arbóreas pode fortalecer a resiliência em um planeta em aquecimento, com padrões climáticos cada vez mais instáveis, ao mesmo tempo em que protege as árvores dorisco de extinção provocado pela expansão agrícola, pela superexploração, pelas mudanças climáticas e pela disseminação de espécies invasoras e outras espécies potencialmente problemáticas.

Regenerar as paisagens

As espécies arbóreas nativas podem desempenhar um papel fundamental no fortalecimento da biodiversidade e no apoio à restauração ecológica, além de contribuir para uma ampla gama de serviços ecossistêmicos. Em contextos de restauração, as árvores nativas plantadas podem representar biodiversidade — ao contribuir para a regeneração de populações locais de árvores, caso atinjam a maturidade — e, ao mesmo tempo, fornecer habitats essenciais para outros organismos nativos.

“O Padrão Global de Biodiversidade (The Global Biodiversity Standard – TGBS) foi concebido para enfrentar a atenção insuficiente que muitas iniciativas de plantio de árvores dedicam à biodiversidade e à restauração ecológica”, afirma Paul Smith, secretário-geral da Botanic Gardens Conservation International (BGCI) e um dos autores do documento. “Seu objetivo é garantir aos investidores no plantio de árvores que a biodiversidade não está sendo prejudicada e que as metas de melhoria da biodiversidade estão sendo cumpridas.”

Com sede no Reino Unido, a Botanic Gardens Conservation International lidera o Padrão Global de Biodiversidade, um esquema de certificação voltado ao plantio de árvores e a outros usos. O TGBS busca reconhecer e apoiar projetos de plantio que gerem impactos positivos para a biodiversidade, ao mesmo tempo em que atendem às necessidades das comunidades locais e cumprem os requisitos de captura de carbono.

O plantio de espécies arbóreas nativas pode oferecer benefícios adicionais. Em princípio, essas espécies tendem a estar bem adaptadas ao ambiente local, após terem evoluído ali ao longo de milhares ou até de milhões de anos. Elas também fornecem produtos e serviços associados a valores culturais, contribuem para os meios de vida e geram oportunidades econômicas para as comunidades locais.

“Tenho especial interesse no plantio de espécies arbóreas nativas alimentares na restauração de paisagens”, afirma Ramni Jamnadass, cientista principal do CIFOR-ICRAF e assessora sênior em recursos genéticos florestais e biodiversidade, que contribuiu para o documento. “Isso porque essas árvores podem apoiar múltiplos resultados ambientais e de saúde humana e, neste último caso, fornecer dietas nutritivas e culturalmente adequadas às pessoas.”

Jamnadass acrescenta que o acesso a sementes arbóreas de alta qualidade não se refere apenas à qualidade física das sementes ou das mudas, mas também à sua qualidade genética, incluindo diversidade e procedência adequada, fatores que influenciam de forma decisiva o desempenho a longo prazo.

Compensações e incentivos

Os autores observam que os esforços para promover o plantio de espécies arbóreas nativas costumam ser complexos. Em determinadas situações — especialmente quando a produção é o objetivo principal — as espécies introduzidas podem continuar sendo a opção preferida.

“Nem as espécies nativas nem as introduzidas estão automaticamente adaptadas aos climas futuros”, afirma Jamnadass. “Os produtores podem enfrentar compensações reais ao adotar espécies nativas.”

O documento recomenda uma série de medidas para tornar o plantio de árvores nativas mais atraente para os produtores e as comunidades onde o plantio ocorre. Entre elas está a comercialização de madeira, frutos e outros produtos provenientes de árvores nativas plantadas, ainda que para um número limitado de espécies. Também é fundamental a introdução de isenções fiscais ou de outros incentivos financeiros para produtores, comerciantes e processadores que contribuam para o fortalecimento da biodiversidade e dos serviços ecossistêmicos.

“A adoção limitada de espécies nativas geralmente reflete sistemas de sementes frágeis ou fragmentados — devido à falta de investimento em espécies nativas — mais do que a ausência de interesse por parte de quem planta árvores”, afirma Jamnadass. Os autores concluem que uma transição para o uso de espécies nativas implica ampliar a disponibilidade de sementes e mudas para os usuários, capacitar as comunidades locais na produção e no processamento de novos produtos derivados das árvores plantadas, estabelecer nova infraestrutura para processamento, armazenamento e comercialização, além de desenvolver cooperativas de produtores e sistemas de informação que conectem produtores e comerciantes.


Agradecimentos

O projeto Right Tree in the Right Place for the Right Purpose conta com o apoio da Iniciativa Internacional para o Clima do Ministério Federal Alemão do Meio Ambiente, Ação Climática, Conservação da Natureza e Segurança Nuclear. O projeto é implementado pelo CIFOR-ICRAF, pela Botanic Gardens Conservation International e pela Unique Land Use, com o apoio do Global Landscapes Forum e em cooperação com a AFR100.