LANGUAGE

Pesquisar artigo

É hora de dar às Áreas Úmidas a importância que merecem

EN, ES, ID, PT-BR
6 min read
São ecossistemas cruciais, mas estão desaparecendo três vezes mais rápido do que as florestas.
Área de turfa na Amazônia peruana. Rupesh Bhomia/CIFOR-ICRAF

Apesar de sua importância, nem todos os ecossistemas são valorizados igualmente. Nesse sentido, os “preferidos” do nosso planeta, como as florestas tropicais, os recifes de coral e as geleiras, costumam atrair mais esforços e preocupações em termos de conservação e pesquisa.

Enquanto isso, a ampla variedade de Áreas Úmidas da Terra – incluindo pântanos, charcos, turfeiras, manguezais, brejos, estuários e muito mais – tende a receber pouca atenção. No idioma inglês, por exemplo, existem expressões cotidianas como bogged down (preso no atoleiro), swamped (afogado) ou mired (preso na lama), que são usadas para descrever situações difíceis ou negativas. Poucos dos adjetivos que usamos para descrever as Áreas Úmidas são realmente elogiosos: “pantanoso”, “alagado” e “turvo”, entre outros. Para a maioria de nós, a ideia de passar as férias em uma paisagem de Área Úmida é muito menos atraente do que em uma praia ou uma floresta. Esses geralmente não são lugares vistos como ideais para piqueniques ou para se conectar com a natureza.

No entanto, o apelo de um ecossistema para os humanos nem sempre é um bom indicador de suas contribuições para os sistemas do planeta e, no caso das Áreas Úmidas, isso parece ser especialmente verdadeiro. Seu estado de estagnação e decomposição entre a terra e a água, que as caracterizam, captura enormes quantidades de carbono e outros gases de efeito estufa: atualmente, sabe-se que armazenam mais de 30% do carbono total do solo do planeta em apenas 6% da superfície terrestre.

Um estudo recente do Centro de Pesquisa Florestal Internacional e Centro Internacional de Pesquisa Agroflorestal (CIFOR-ICRAF) e seus parceiros demonstra que esses ecossistemas muitas vezes esquecidos podem mitigar mais da metade das emissões de gases de efeito estufa derivadas do uso da terra no Sudeste Asiático quando são gerenciados adequadamente.

As Áreas Úmidas também são extremamente ricas em biodiversidade, fornecendo um habitat único para uma grande variedade de flora e fauna. Isso inclui muitas espécies ameaçadas de extinção, como os orangotangos (Pongo spp.) e os tigres (Panthera tigris), aves aquáticas migratórias como os grous cantores (Grus americana), além de uma grande quantidade de répteis, anfíbios, peixes e insetos.

O valor das Áreas Úmidas nem sempre foi subestimado. Há milhares de anos, o povo maia da América Central construiu jardins elevados sobre o solo encharcado e cultivou policulturas complexas e altamente produtivas que podiam resistir às secas. O arroz, um dos cultivos básicos do planeta, evoluiu nas Áreas Úmidas da bacia do rio Yangtzé, na China. Nos lamacentos manguezais do Sudeste Asiático, santuários e locais sagrados testemunham o significado cultural desses espaços.

Até hoje, muitos de nós dependemos das Áreas Úmidas mais do que imaginamos. Elas regulam e purificam a água e funcionam como berçários para peixes e outras espécies comestíveis. Protegem as comunidades humanas contra enchentes, tempestades e a elevação do nível do mar, oferecendo uma ampla gama de serviços baseados na natureza. Suas contribuições são particularmente essenciais nos países em desenvolvimento, onde a assistência governamental é mais escassa e os impactos climáticos podem ser mais intensos.

Mas, apesar desses benefícios, nossas Áreas Úmidas enfrentam múltiplas ameaças. Aproximadamente 87% das Áreas Úmidas do mundo já desapareceram, com 64% dessa perda ocorrendo desde 1900. Entre 1970 e 2015, houve uma redução de 35% na área global de Áreas Úmidas, indicando que estão desaparecendo três vezes mais rápido do que as florestas.

A mudança no uso do solo é o principal fator da degradação das Áreas Úmidas. O desenvolvimento econômico, que exige constantemente novas terras para a agricultura, a expansão urbana e projetos de infraestrutura (como estradas, moradias e zonas industriais), levou à perda progressiva desses ecossistemas. A agricultura, por si só, afetou mais da metade das Áreas Úmidas designadas como de Importância Internacional sob a Convenção de Ramsar. As Áreas Úmidas costeiras frequentemente são aterradas para o desenvolvimento do turismo e a aquicultura: no Sudeste Asiático, por exemplo, muitas florestas de mangue foram convertidas em criadouros de camarões. Essas mudanças também contribuem para o aquecimento global, que, por sua vez, afeta as Áreas Úmidas, alterando a disponibilidade de água, a salinidade que as equilibra e as taxas de erosão.

O Dia Mundial das Áreas Úmidas, celebrado em 2 de fevereiro, nos lembra da necessidade de proteger as Áreas Úmidas que ainda restam no planeta e restaurar aquelas que já estão degradadas.

Os governos podem fazer sua parte ampliando o número e o alcance das Áreas Úmidas protegidas, designando-as como parques nacionais, reservas naturais ou sítios Ramsar. Integrar as Áreas Úmidas nas políticas nacionais de clima e água, reconhecendo suas funções essenciais no controle de enchentes, no armazenamento de carbono e na conservação da biodiversidade, é fundamental para garantir que recebam a atenção que merecem.

As políticas também devem limitar a drenagem de Áreas Úmidas (como as turfeiras), a colheita insustentável de espécies desses ecossistemas e regular o escoamento agrícola e o despejo de poluentes nesses territórios. Além disso, é essencial incluir as prioridades das comunidades locais e apoiar seus usos tradicionais e atividades de subsistência sustentáveis.

E quanto ao resto de nós? Podemos contribuir aprendendo mais sobre sua conservação, participando de projetos de ciência cidadã que nos conectem com as espécies desses ecossistemas e defendendo políticas mais robustas para sua proteção.

Por exemplo, você sabe quantos sítios Ramsar existem no seu país?
Além disso, este ano há uma grande oportunidade de informação, já que os membros da Convenção Ramsar se reunirão no Zimbábue para avançar nos esforços globais para a proteção das Áreas Úmidas no evento que vem sendo chamado de COP15 das Áreas Úmidas.

Muito além do que parecem, as Áreas Úmidas são mais importantes e fascinantes do que a maioria imagina. Vamos unir esforços para garantir que recebam o cuidado e a atenção que merecem.